Vermelho Vibrante

Vermelho Vibrante

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Momentos Noturnos

E a vida continua com esbarrões, sentinelas e transtornados.

O que me traz aqui hoje são os seres esquisitos. Você conhece pessoas esquisitas? Já esbarrou com algum esquisito na sua vida? Tem uns exemplares que nasceram providos de estranhezas. Valentina Vitória que o diga. Ela contou a respeito de um sujeito que conheceu há algum tempo. Resisti o quanto pude, mas minha vontade de compartilhar esta história com vocês resultou no texto abaixo. Claro, quem conta um conto aumenta um ponto. Como Vitória Valentina revelou detalhes, a perspectiva parte de um amigo do amigo do amigo.

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Meu melhor sono é o das três e meia da madrugada. Minha hora preferida. Os sonhos mais inescrupulosos apresentam-se à minha mente, quase sadia, nesse exato horário. Então... Cleodianovita – nome esquisito para uma mulher tão boazuda – está pronta para usar as correntes...

- Já vou! Já vou! – levanto para atender a porta. Lá se vai meu sonho.

Com o calor que faz nesta cidade é até um alívio sair da cama. Estou nu. A toalha de mesa serve como roupão. Deve ser a irmã do Zuba. Depois que começamos a namorar, há uns dois meses, minhas madrugadas são movimentadas. Foi assim que descobri que três e meia é minha melhor hora para estar dormindo.

Na porta, a própria. Entrou e sentou-se na única poltrona da sala. Fiquei em pé. Quando cruzamos o olhar sabia que, no mínimo, iríamos a três lugares.

- Zuba. – afirmei.

- Zuba! – ela confirmou.

Conheci Zuba num aniversário de fim de semana, em um apartamento na Lagoa, mas o melhor da festa foi conhecer a irmã do Zuba. Transamos no banheiro de uma das suítes. No dia seguinte, nos encontramos no Monumento aos Mortos da II Guerra e à tarde estávamos no meu quarto. Transamos. Comemos. Dançamos. Conversamos. Dormimos. Três e meia da madrugada o celular dela tocou. Era a mãe dela. Ainda na cama, pediu para procurarmos por Zuba.

O encontramos no Largo de São Francisco, agarrado a estátua de José Bonifácio de Andrada e Silva, cercados pela Justiça, Integridade, Ciência e Poesia, as quatro damas que fazem companhia ao patriarca da Independência do Brasil. Antes de descer Zuba beijou o Manifesto às Nações. No chão, sugeriu que esperássemos a Confeitaria Colombo abrir para tomarmos o café da manhã. Olhei para os dois e aceitei o convite. Enquanto comíamos pão na chapa com manteiga o Centro da Cidade começou a borbulhar de pessoas. Saí direto para o meu trabalho.

No fim de semana seguinte, às três e meia, novamente a mãe do Zuba nos acordou. Desta vez ele estava na Travessa do Ouvidor, com a orelha grudada no saxofone do Sr. Alfredo da Rocha Vianna filho, o Pixinguinha. Segurei o braço da minha namorada para diminuirmos o passo. Com certeza, estava cansada de assistir aquela cena. Zuba parecia sentir o som daquele instrumento. Quase pude ver os Oito Batutas tocando naquele beco. Tomamos nosso café na Livraria da Travessa. Ameacei questionar o porquê das visitas noturnas às estátuas e recebi um chute na canela.

No domingo marcamos encontro na praia do Arpoador, na hora do pôr-do-sol. Depois do primeiro beijo perguntei o que acontecia com Zuba. Os olhos castanhos que me fitaram brilhavam e lágrimas molharam-lhe o rosto. Não me deixei levar pela emoção. Aguardei o fim do choro. Insisti em saber e ela foi embora junto com o sol que mais uma vez se afogava no mar. Fiquei danado da vida.

Às três e meia de segunda-feira ela bateu à minha porta. Fomos parar na Av. Atlântica, onde Carlos Drummond de Andrade está sentado num banco na calçada de Copacabana. Todo mundo senta para olhar as ondas e o cara está de costas o tempo todo. Triste destino. Zuba conversava com o poeta. Falava baixinho, próximo a aurícula. A irmã estendeu-lhe a mão. Naquele dia, passeamos pela orla de pedrinhas portuguesas brancas e pretas até o raiar do sol.

4 comentários:

Anônimo disse...

palavras...o jogo da mente expressado fisicamente...
love
LORD

Melhor Amiga de Valentina Vitoria disse...

Sweet Lord,

Obrigada por aparecer por aqui. É uma honra!

Permita-me ousar. Palavras ora revelam ora traem. Ora amenizam ora irritam. Completam pensamentos e traduzem ações.

Reverências a você, caro.

Beijo

INTERVALO CULTURAL RIO disse...

Engraçado que ao ler a passagem sobre como encontraram Zuba agarrado a estátua de Bonifácio, veio-me à mente a cena de Chaplin no filme "Luzes da Cidade", em que ele tirava uma soneca no alto de uma estátua. Além dessa associação, há em ambas as histórias lirismo e poesia. A motivação comum: a paixão, aquele sentimento (esquisito?) que nos vira pelo avesso e nos faz querer (ou não) dormir às três e meia da madruga. Acho que Drummond permaneceu sobre o banco, com um largo sorriso no rosto...
Beijo grande no coração!!!

Melhor Amiga de Valentina Vitoria disse...

Caro Filardi,

É muito bom escutar tuas palavras e saber que minhas histórias provocam lembranças de cenas líricas e poéticas.

Obrigadíssima!

Beijo