Vermelho Vibrante

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sábado, 15 de setembro de 2007

Os Gatos Dançarinos

Valentina Vitoria é cheia de imaginação. Haja! Conversávamos sobre filhos, sobrinhos, enteados, crianças. Foi quando me contou a respeito das histórias que inventa para aquietar e “assustar” os pequenos irrequietos. Dei muitas risadas das invencionices que cria. Minha paixão por gatos fez com que minha mente guardasse as aventuras do menino que anda por aí, conhecendo mundos distantes e, digamos, esquisitos. Apresento...

OS GATOS DANÇARINOS

Vi de longe a silhueta de dois gatos em cima de um telhado. Do telhado de uma casa que a cada passo me dava à certeza de estar dentro de um cemitério. E daí? Qual é o problema de dois gatos pulando em cima do telhado de uma casa que fica dentro de um cemitério? Nenhum?! Será mesmo? Quando vi que o muro transparente mostrava sepulturas coloridas e que os gatos na realidade estavam dançando, senti muita vontade de conhecer aquele lugar e os moradores. Era muita alegria.

Sou um ser muito curioso e a curiosidade estava me arrastando para dentro daquele lugar. Entrei na estrada rosa. Logo na entrada, bem em cima do portal existia a seguinte frase: “Desaconselhável chorar e sentir tristeza”. Até onde sei, cemitérios são lugares onde as pessoas sentem-se tristes. Já estive lá. Lembro de vovô deitado, muito quieto, e de mamãe fingindo que não chorava.

No cemitério que ficava na estrada rosa, conheci Flack, o Gorducho e Campolino, o Estrábico. Os gatos dançarinos. Eles eram os guardiões e organizadores de todas as comemorações. Inclusive, a algazarra toda que estava acontecendo era para o Sr. Strompi. Pensei que o tal senhor havia revivido. Por isso perguntei o porquê de tanta alegria. Flack respondeu que quando alguém se hospedava no Felicidade das Caveirinhas era uma festa.

O nome do cemitério é arrepiante, apesar de providencial. Como sou um mero espectador do cotidiano, decidi ficar mais um tempo naquele lugar.

O outro gato contou que no dia da entrada da Dona Lidinha, os parentes e amigos fizeram um rodízio de contos e cada um escreveu os momentos mais marcantes que passaram com ela.

Fiquei sabendo que um forasteiro começou a chorar em cima da nova moradia do pai. O mordomo de plantão tocou uma melodia que fez o rapaz sair de lá um cantador de rock and roll.

A cada história que ouvia, sentia vontade de ouvir outras. Soube que a pequena Tarina, que tinha quatro anos e dificilmente chegaria aos cinco, teria muito festejo com brincadeiras, doces, bebidas refrescantes e corridas de skate.

Passei um tempo tentando entender porque tanta celebração naquele momento de despedida. Fiz a pergunta que não saia da minha mente: por que tanta alegria? Os gatos riram da minha inquietação e contaram que conheciam a Dona Morte. Flack já usou duas de suas vidas e Campolino três. Gatos têm essa facilidade de morrer nove vezes.

O gorducho afirmou que a Dona Morte aparece na hora que precisa. Nem antes nem depois. Acrescentou que se diverte quando alguém diz que não quer morrer. Um dia há que conhecê-la por mais que se prolongue a vida.

Tive vontade de chorar e esquecer que passei por ali. Olhei novamente para todos e tudo que vi foi alegria e divertimento. Passei a desejar aqueles mesmos sentimentos quando chegasse o momento... Quer saber? Vou esperar acontecer o que tem que acontecer e vou me preparando para estar muito feliz e contente, pois o que importa agora é que existem pessoas que amo e estão perto de mim.

Ante de ir embora, convidaram-me para participar do “Festival dos que já foram”. Todos os vivos reúnem-se, simbolicamente, com todos que estão presentes nas catacumbas. Neste festival comemora-se o privilégio de se ter compartilhado da vida de quem já se faz ausente. Preferi voltar para estrada azul e imaginar como seria essa comemoração.

4 comentários:

Cris Martins disse...

Oiii
Cheguei até aqui pelo site do Wolverine.
Gostei do seu espaço.
Ótima semana.

Melhor Amiga de Valentina Vitoria disse...

Olá, Cristiane!

Seja benvinda! Obrigada pela visita! Volte sempre!

Bom que gostou dos meus escritos. São minhas chaves para mundos desconhecidos.

Wolverine foi muito gentil nos escolhendo "pelo simples prazer que proporcionam" nossos blogs!

Beijo

INTERVALO CULTURAL RIO disse...

Essa história dos gatos dançarinos me fez lembrar de "Os fantasmas se divertem", talvez pela aura de "tô nem aí" dos gatinhos. E também de um ritual. Em alguns países, no oriente, a morte de um ente querido é celebrada com festa, com alegria, por representar o término vitorioso de um ciclo (e o rememorar de inúmeras realizações). A visão ocidental (e religiosa) da morte nos apavora. Mas Flack e Campolino sabem que há transitoriedade em tudo na vida. Não é para levá-la tão a sério. O segredo talvez esteja em transbordar irreverência e responsabilidade (talvez com um sorriso cínico no canto da boca...). Para quem acredita em Deus, sabe que o impossível é algo que não existe. A morte - quem sabe? - talvez não exista. Beijo grande no coração!

Logan Araujo disse...

Ola linda tem meme pra você lá no blog.
Beijos